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Contemporary Quilts

*Imagem de destaque – Painel Peg Collins

Existem várias definições sobre onde e como usar esse termo. Muitas vezes definidos como colchas modernas, funcionais, com cores fortes e inspiradas por um design moderno. Minimalismos, espaços negativos, expansões, assimetrias, trabalhos alternativos de grades…. partes que compõem um painel, um edredon, um caminho, uma manta, sempre modernas.

Improvisações de emendas, retas, curvas, profundidades…. espacial jogado entre tantas inspirações.

Quase sempre Color block, como diria meu querido Airton Spengler, ou “bold colors” como diria Angela Pingels. Agora podemos ousar com texturas diferentes. Tudo é possível!

Painel: Cecilia Koppman

Ou como faz quase sempre nossa querida Cecilia Koppman, os tecidos podem ser tingidos, com nuances delicadas se fazendo presente.

Enganam-se quem pensa que são fáceis de se fazer. Precisa atenção e muito bom gosto. Capricho em todos as emendas e costuras.

Mas cuidado ao executar…. muitas vezes tornam-se obras totalmente diferentes das que foram projetadas, pois acabam criando vida e nos conduzindo a resultados bem pertinentes ao nosso sentimento.

Eu sou apaixonada por elas. Todas me seduzem para serem reproduzidas. Falta tempo para tantas coisas a serem administradas.

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Uma artista sem igual

Conhecer um pouco mais sobre a Rita Rocco com certeza foi uma experiência incrível. Ela é uma pessoa completamente encantadora e dotada de uma humildade sem igual. Já faz um tempo que tenho conversado com diversos artistas do setor do patchwork, mas a Rita realmente me tocou de uma forma muita profunda. Talvez isso tenha acontecido por causa da nossa semelhança ao ver as possibilidades do patchwork e a leve insegurança que temos em relação as nossas próprias criações.

Sua história com os tecidos é aquele mesmo clichê de muitas de nós, a mãe e as irmãs costuravam e acabou se encantando pelo oficio. “Eu aprendi muito com elas. Fiz faculdade de Belas Artes, me formei e fui trabalhar com adolescentes”, conta Rita. Após muitos anos ela descobriu o patchwork, por causa de um evento feito pelo Fernando Maluhy no Senac em São Paulo. “Fiz aulas num ateliê em Santana e conheci a Rute Sato por acaso. Passei num ateliê e vi um trabalho em patchwork belíssimo, lá me indicaram a Rute que dava aula na zona norte”, explica.

A partir daí tudo começou a caminhar. Rita entrou para o Clube Brasileiro de Patchwork e Quilting e seus trabalhos foram se aperfeiçoando. Ela fez várias aulas de bordados e hoje ensina técnicas lindas. Sua opinião quanto ao bordado é a de criar e explorar as possibilidades. “O bordado você precisa praticar, como é que surgiram esses pontos? Alguém pegou uma linha e uma agulha e começou a criar esses movimentos. Nós também não precisamos nos prender a isso, podemos tentar coisas novas”, conta Rita. A artista adora misturar materiais, inclusive na hora de bordar. Ela utiliza pedaços de tecidos, barbantes, fios diversos. O importante é criar as texturas.

Ela já participou de diversas exposições, inclusive fora do país. “Em 2008 foi o meu primeiro trabalho exposto em Gramado com o Clube Brasileiro de Patchwork e Quilting. Paralelo a isso fizemos algumas exposições na Alemanha, Itália, França, com bordado”, explica. Mas fiquei levemente chocada ao saber que nunca enviou trabalhos para os eventos internacionais. Segundo Rita, ainda não se acha a altura de tais eventos. Basta apenas uma espiada em suas criações para termos certezas de que ela nunca esteve tão equivocada.

Rita ensina muitas a criar e explorar as possibilidades do bordado e do patchwork. Em seus trabalhos é possível ver a sua versatilidade em diferentes técnicas e a ousadia em misturar materiais. Pessoalmente, eu entendo que a matéria prima é importante para o resultado final do trabalho, mas realmente admiro quem tem essa grande capacidade de sobrepor ao material e criar com o que tiver em seu alcance. Para Rita é exatamente isso. “Quando temos a veia criativa, tanto faz trabalhar com o mais nobre. Com patchwork e bordado eu me realizo, é realização.”

(atualmente a Rita Rocco ministra aulas no Ateliê Sonho de Retalho e no Luma Studio de Cerâmica em São Paulo)

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Encontrando o nosso espaço no meio da arte

Conhecer o universo do patchwork tem sido uma jornada incrível. São muitas possibilidades e intérpretes nessa história repleta de criatividade, talento e muita dedicação. Aos poucos fui descobrindo que o patchwork vai muito além do artesão e da professora. E essas pessoas maravilhosas, que vivem nos bastidores de grandes eventos merecem um pouco de nossa atenção.

Entrada da exposição: Na lateral trabalhos brasileiros. Ao fundo a direita, arte têxtil da brasileira Ava Soban. Ao fundo Arte da americana Sidnee Snell.

Uma delas é o Zeca Medeiros. Ele dedica sua vida em divulgar e organizar exposições de arte têxtil. Esta é uma vertente cultural pouco conhecida e valorizada no Brasil e que ainda está conquistando o seu espaço. “Eu conheci através da minha mãe que fazia os trabalhos e me interessei pela história do patchwork, como ela é grande, vasta”, conta Zeca. Suas primeiras exposições focavam no tradicional, mas logo ele descobriu outras possibilidades que o tecido oferece. “Comecei a buscar os contemporâneos e encontrei um mundo novo, da arte têxtil contemporânea, que utiliza a técnica do tradicional, mas apresenta trabalhos diferentes”, explica o curador. Continuar lendo Encontrando o nosso espaço no meio da arte

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A arte de ir além!

Muitas vezes a vida nos leva para longe do que realmente nos faz feliz. Mas um dia o nosso caminho aparece e encontramos a nossa verdadeira vocação, com a Cláudia Dias foi assim. Formada em artes plásticas, ela sempre gostou de desenhar, porém quando foi morar em São Paulo acabou se envolvendo com o ramo de joalherias. Mas o destino dá um jeito de mostrar o que devemos fazer. “Uma tia do meu marido me mostrou o patchwork tradicional, mas não me adaptei. Pois eram muitas regras e matemática”, conta Cláudia. Ela olhava para o tecido e imaginava outras possibilidades, queriam fazer algo diferente. “Admito muito quem faz o tradicional, mas não era para mim. Porém um dia conheci a Dóris e meu mundo se coloriu”, explica. Ela está falando da Dóris Teixeira, uma artista e professora incrível, conhecida pelas seus trabalhos repletos de cores, detalhes e texturas.

E foi assim que ela descobriu a sua vocação: criar imagens, texturas e sensações com os tecidos. “Agora sou livre pra criar”, conta Cláudia. E seu trabalho é o exemplo perfeito dessa liberdade. Essa artista incrível busca inspirações nas estampas florais e nas próprias fotos. Ela não se limita a apenas tecido na hora de escolher sua matéria prima. “Gosto muito de pesquisar materiais diferentes, uso plástico, redes de flores, papel etc.”, explica. O resultado são obras autorais, cheia de texturas e cores.

Obra “Panapaná” exposta em Portugal.

Essa opção por utilizar outros materiais também está relacionada a questão do consumo. Foi muito gratificante conversar com uma artista que também está preocupada na utilização de recursos de forma consciente e reaproveitando ao máximo itens que normalmente seriam descartados. “Eu fico pensando por que vou cortar o tecido em vários pedacinhos se eu posso pegar um branco e tingi-lo?” questiona Cláudia. Muitas vezes somos seduzidos a comprar tecidos diferentes e esquecemos que podemos aproveitar melhor o que já temos guardado. “É realmente olhar para o item e falar: eu preciso disso?”, explica. Isso nos faz pensar em quantas vezes compramos coisas que ficam entulhadas nos armários.

Fazer o novo

Obra “Obsessão”exposta em Paducah.

Em nossa conversa foi inevitável não falar sobre o processo criativo. Vivemos na era da tecnologia, temos acesso a imagens, vídeos, informações de forma muito simples e rápida. Mas isso também faz com que o criar se torne cada vez mais raro. “Em meus cursos abordo sobre a criação, como sou artista plástica é um processo que já tenho mais noção. Mas também vejo um certo medo nas pessoas, de ter ideias e coloca-las no papel”, explica Cláudia. Essa dificuldade também é parte de uma formação de cultura, o Brasil está iniciando sua trajetória na art quilt e ainda é preciso melhorar em muitos aspectos. “Precisamos de mais conscientização em relação a criação”, complementa a artista.

Obra “O canto do Uirapuru” exposta em Portugal.

Cláudia já participou dos principais festivais internacionais do setor, porém nunca enviou trabalho seus para os brasileiros. Essa decisão está diretamente ligada a fragilidade de como lidamos com a questão do trabalho autoral. “O julgamento de um trabalho de art quilt não pode ser apenas sobre a técnica e sim sobre o que está na frente, a imagem representada”, explica Cláudia. A artista já enviou trabalhos para os EUA, Portugal, Itália, Paris… e tem sido muito bem recebida em todos esses lugares. “A receptividade do meu trabalho é muito boa, pois trata-se de uma busca, uma pesquisa. É isso que as brasileiras precisam ir atrás, olhar suas fotos, suas inspirações. Ver uma flor, uma paisagem, uma criança e fazer uma releitura disso”, complementa.

O processo criativo não é algo simples ou fácil, nem mesmo para grandes artistas. Cada um tem a sua maneira e o seu ritual na hora de pensar em uma nova obra. “Geralmente quando participo de mostras tem um tema, aí vou pesquisar o assunto, e descobrir o que ele significa pra mim. Faço leituras, pesquiso imagens e depois faço um desenho”, explica Cláudia. Após toda essa fase de reflexão, que muitas vezes chegam a levar semanas, é que ela inicia o processo de produzir o trabalho. “O ato da criação é até sofrido, pois não me conformo com qualquer imagem que eu crio. As vezes fico até um mês com trabalho”, desabafa a artista. Mas o resultado final é realmente maravilhoso e todo o esforço e dedicação faz valer a pena. O mesmo acontece nos workshops que ela oferece. Ela faz um planejamento e a criação do projeto que será ensinado, pensando em diferentes temas e o uso das técnicas para executá-los.

Ao finalizar nossa conversa Cláudia deixou escapar alguns de seus planos para o futuro. “Eu tenho um planejamento de fazer um livro, está em andamento”, conta. Ela também está criando seu site, assim será possível acompanhar de perto seu trabalho e trocar experiências. Foi um bate papo delicioso e com gostinho de quero mais, o que nos resta é a expectativa de tudo que ainda está por vir dessa excelente artista.

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O tecido no estado da arte! – Parte II

Crédito: Ciça Mora

Na primeira parte desse texto conhecemos mais o caminho que Cíça Mora trilhou até encontrar o patchwork. Como muitas de nós, ela buscou algo nesse vasto mercado de possibilidades, que fizesse sentido para ela, que fosse significativo e lhe oferecesse o que buscava. A Curadoria é uma profissão extremamente importante e, também, pouco conhecida. No mundo da Arte, é esse profissional que será responsável por organizar, cuidar e expor obras de arte. Cuidar… essa é uma palavra com muito significado e que melhor representa o papel da Cíça no Quilt Art brasileiro.

Mas como começar algo novo aqui no Brasil?! Não tínhamos mais ninguém com esse objetivo na época em que Cíça começou e por isso vários desafios foram enfrentados por ela. “Fui a primeira a exercer especificamente essa função no segmento, pois as exposições eram organizadas pelos próprios organizadores de eventos. Fiz muitos cursos, minha pós-graduação foi voltada para a Curadoria em Instituições, Eventos e Museus e minhas experiências foram formatando a bagagem que carrego hoje.” explica Cíça. Após muitos estudos e de atuação contínua nesse mercado, a profissional também teve que lidar com outros desafios, desde a forma como as pessoas se portam ao visitar uma exposição, até dificuldades das empresas com relação ao apoio aos artistas. “Eles não compreendem que deveriam apoiar financeiramente o artista, ao invés de lhe oferecerem apenas os materiais dos quais dispõem. Não percebem que esse apoio reverberaria positivamente no comércio em geral e que não se trata de promoverem seus próprios produtos, mas de apoiar uma classe que, a duras penas, carrega todo um segmento nas costas”, conta. Em pleno 2018 ainda vivemos uma prática de patrocínio na base do “escambo”.

Um dos principais desafios é um tema que já abordamos aqui neste blog, o registro das obras. Falamos sobre a importância das etiquetas, mas pra Ciça a necessidade de catalogar as obras vai muito além disso. “Nosso segmento não tem memória. Nenhum livro sobre como começou tudo, ou sobre como nos desenvolvemos. Nenhum livro catalogando as obras inenarráveis dos grandes artistas. Nenhum museu que preserve nossa história e patrimônio artístico. Existem muitas propostas, mas nenhum comprometimento.”, explica a profissional. Realmente, precisamos fazer uma mudança cultural e começar a enxergar a potencialidade e o valor de nossas criações. Guardar nossa história com muito carinho e possibilitar que novas gerações conheçam o nosso passado.

Já, em relação a encontrar Brasil afora esses artistas, Cíça nos conta como é o processo seletivo. “De 2007 a 2017 eu trabalhei dentro de um formato próprio que criei a partir da minha segunda curadoria: produção de conteúdos com trabalhos inéditos. Lançava um convite em minha página do facebook e participavam gratuitamente todos os que quisessem. Eu iniciava um grupo fechado na internet, determinava uma temática, a data de entrega, medidas das obras e, enfim, as regras de participação. Os artistas do grupo compartilhavam suas experiências e pesquisas, entregavam seus trabalhos e nasciam, então, as exposições”.

A partir de 2018 a forma de realização das exposições adquiriu outro formato. Durante 10 anos Cíça Mora nunca cobrou absolutamente nada de nenhum artista para divulgar o seu trabalho. Conseguia o espaço gratuito nas feiras e arcava com o restante das despesas. “E em todas as minhas exposições as peças que não eram acervos particulares ficavam à venda e, quando vendidas, todo o dinheiro da venda foi revertido integralmente ao artista, sem nenhum desconto para o evento ou comissão para a Curadoria”, explica Ciça. As peças vendidas eram tratadas como obras de arte, com entrega de Certificado de Autenticidade , inserido por ela, com o objetivo de valorizar e dignificar o trabalho do artista têxtil, além de criar um hábito, no público visitante, de comprar obras como compram os produtos vendidos nas feiras. “Decidida a um novo formato, mais independente e com foco voltado para o mercado da arte, fora das feiras comerciais, resolvi cobrar dos próprios artistas. E o projeto Jardins Suspensos, com estreia prevista para 2018 é histórico, por ser a primeira experiência brasileira custeada unicamente pelo próprio coletivo de artistas”, conta Ciça. Infelizmente cobrar do próprio artista pode restringir um pouco a sua participação, mas é uma maneira que ela encontrou de seguir operando a organização e divulgação do setor. “Isso foi muito bem absorvido pelos artistas que, hoje em dia, participam das exposições na medida do possível, dentro de um planejamento financeiro prévio”, complementa.

Todas as suas exposições têm grande participação de público, algo primordial para a continuação de seu trabalho. Estamos ainda criando uma cultura, nos descobrindo como artistas têxteis e aprendendo como exercer nosso papel. Com certeza a Cíça tem sido primordial para mostrar um caminho e auxiliar a todos que ingressam nesse mercado. Ao final de nossa conversa pedi para que me falasse o que significava a Arte Têxtil para ela. Vejam que lindas, as suas palavras: “A Arte Têxtil é o mote de todas as minhas investigações e é através dela que me expresso. Eu a tenho como uma ponte entre mim e o resto do mundo. Nas duas frentes em que atuo (porque ser Curadora também é exercer uma poética), a arte me ajuda a cultivar o que tenho de melhor e mais humano em mim. Eu me redescubro diariamente em novas problemáticas a serem refletidas. E como artista, ao sentar-me para reproduzir com materiais uma coisa tão fluída como o meu pensamento, e ver tanto das minhas memórias contidas numa obra, eu sinto felicidade.  Imagino com emoção que os trabalhos vão permanecer no tempo, além de mim, sacralizando minha existência. Então, como não respirar poesia, como não gostar de arte, como não viver em eterna fruição? Pra mim não dá. É como tirarem o ar que eu respiro…”

Imagens do arquivo pessoal de Ciça Mora.

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