Artistas que inspiram

O tecido no estado da arte! – Parte II

Crédito: Ciça Mora

Na primeira parte desse texto conhecemos mais o caminho que Cíça Mora trilhou até encontrar o patchwork. Como muitas de nós, ela buscou algo nesse vasto mercado de possibilidades, que fizesse sentido para ela, que fosse significativo e lhe oferecesse o que buscava. A Curadoria é uma profissão extremamente importante e, também, pouco conhecida. No mundo da Arte, é esse profissional que será responsável por organizar, cuidar e expor obras de arte. Cuidar… essa é uma palavra com muito significado e que melhor representa o papel da Cíça no Quilt Art brasileiro.

Mas como começar algo novo aqui no Brasil?! Não tínhamos mais ninguém com esse objetivo na época em que Cíça começou e por isso vários desafios foram enfrentados por ela. “Fui a primeira a exercer especificamente essa função no segmento, pois as exposições eram organizadas pelos próprios organizadores de eventos. Fiz muitos cursos, minha pós-graduação foi voltada para a Curadoria em Instituições, Eventos e Museus e minhas experiências foram formatando a bagagem que carrego hoje.” explica Cíça. Após muitos estudos e de atuação contínua nesse mercado, a profissional também teve que lidar com outros desafios, desde a forma como as pessoas se portam ao visitar uma exposição, até dificuldades das empresas com relação ao apoio aos artistas. “Eles não compreendem que deveriam apoiar financeiramente o artista, ao invés de lhe oferecerem apenas os materiais dos quais dispõem. Não percebem que esse apoio reverberaria positivamente no comércio em geral e que não se trata de promoverem seus próprios produtos, mas de apoiar uma classe que, a duras penas, carrega todo um segmento nas costas”, conta. Em pleno 2018 ainda vivemos uma prática de patrocínio na base do “escambo”.

Um dos principais desafios é um tema que já abordamos aqui neste blog, o registro das obras. Falamos sobre a importância das etiquetas, mas pra Ciça a necessidade de catalogar as obras vai muito além disso. “Nosso segmento não tem memória. Nenhum livro sobre como começou tudo, ou sobre como nos desenvolvemos. Nenhum livro catalogando as obras inenarráveis dos grandes artistas. Nenhum museu que preserve nossa história e patrimônio artístico. Existem muitas propostas, mas nenhum comprometimento.”, explica a profissional. Realmente, precisamos fazer uma mudança cultural e começar a enxergar a potencialidade e o valor de nossas criações. Guardar nossa história com muito carinho e possibilitar que novas gerações conheçam o nosso passado.

Já, em relação a encontrar Brasil afora esses artistas, Cíça nos conta como é o processo seletivo. “De 2007 a 2017 eu trabalhei dentro de um formato próprio que criei a partir da minha segunda curadoria: produção de conteúdos com trabalhos inéditos. Lançava um convite em minha página do facebook e participavam gratuitamente todos os que quisessem. Eu iniciava um grupo fechado na internet, determinava uma temática, a data de entrega, medidas das obras e, enfim, as regras de participação. Os artistas do grupo compartilhavam suas experiências e pesquisas, entregavam seus trabalhos e nasciam, então, as exposições”.

A partir de 2018 a forma de realização das exposições adquiriu outro formato. Durante 10 anos Cíça Mora nunca cobrou absolutamente nada de nenhum artista para divulgar o seu trabalho. Conseguia o espaço gratuito nas feiras e arcava com o restante das despesas. “E em todas as minhas exposições as peças que não eram acervos particulares ficavam à venda e, quando vendidas, todo o dinheiro da venda foi revertido integralmente ao artista, sem nenhum desconto para o evento ou comissão para a Curadoria”, explica Ciça. As peças vendidas eram tratadas como obras de arte, com entrega de Certificado de Autenticidade , inserido por ela, com o objetivo de valorizar e dignificar o trabalho do artista têxtil, além de criar um hábito, no público visitante, de comprar obras como compram os produtos vendidos nas feiras. “Decidida a um novo formato, mais independente e com foco voltado para o mercado da arte, fora das feiras comerciais, resolvi cobrar dos próprios artistas. E o projeto Jardins Suspensos, com estreia prevista para 2018 é histórico, por ser a primeira experiência brasileira custeada unicamente pelo próprio coletivo de artistas”, conta Ciça. Infelizmente cobrar do próprio artista pode restringir um pouco a sua participação, mas é uma maneira que ela encontrou de seguir operando a organização e divulgação do setor. “Isso foi muito bem absorvido pelos artistas que, hoje em dia, participam das exposições na medida do possível, dentro de um planejamento financeiro prévio”, complementa.

Todas as suas exposições têm grande participação de público, algo primordial para a continuação de seu trabalho. Estamos ainda criando uma cultura, nos descobrindo como artistas têxteis e aprendendo como exercer nosso papel. Com certeza a Cíça tem sido primordial para mostrar um caminho e auxiliar a todos que ingressam nesse mercado. Ao final de nossa conversa pedi para que me falasse o que significava a Arte Têxtil para ela. Vejam que lindas, as suas palavras: “A Arte Têxtil é o mote de todas as minhas investigações e é através dela que me expresso. Eu a tenho como uma ponte entre mim e o resto do mundo. Nas duas frentes em que atuo (porque ser Curadora também é exercer uma poética), a arte me ajuda a cultivar o que tenho de melhor e mais humano em mim. Eu me redescubro diariamente em novas problemáticas a serem refletidas. E como artista, ao sentar-me para reproduzir com materiais uma coisa tão fluída como o meu pensamento, e ver tanto das minhas memórias contidas numa obra, eu sinto felicidade.  Imagino com emoção que os trabalhos vão permanecer no tempo, além de mim, sacralizando minha existência. Então, como não respirar poesia, como não gostar de arte, como não viver em eterna fruição? Pra mim não dá. É como tirarem o ar que eu respiro…”

Imagens do arquivo pessoal de Ciça Mora.

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