Artistas que inspiram

O tecido no estado da arte! – Parte I

O tecido é uma plataforma incrível. Ele nos aquece, nos protege, decora, adorna… Se pararmos para pensar, o tecido está presente em praticamente todos os aspectos de nossa vida, desde o coar do café à proteção de um trabalhador. Isso é simplesmente fascinante, essa versatilidade e possibilidade que alguma coisa possui. E pegar algo tão comum (não no sentido depreciativo e sim na sua realidade, de estar sempre conosco) e transformar em arte é o que mais me inspira. Então, conhecer uma pessoa que acredita e trabalha diariamente para divulgar e reunir grandes artistas de Quilt Art e arte têxtil foi realmente muito gratificante.

Cíça Mora é curadora das principais exposições de Quilt Art e têxteis do Brasil e sua trajetória nesse setor começou ao se aposentar em outro segmento. Ela buscou uma nova atividade para mudar uma rotina de muitos anos, porém o patchwork tradicional não foi o que mais a encantou. “O nome da minha primeira professora era Thereza e eu sou muito grata a ela, pois foi lá que descobri que não seria feliz costurando quadradinhos. Eu queria o amorfo, a mistura que ia além do uso exclusivo do algodão, algo que se pudesse ser criado de forma independente, sem regras, livre”, explica. Foi neste momento que ela conheceu alguém que iria lhe mostrar um novo mundo de possibilidades. “Conheci, então, o maior, o mais antigo e o mais respeitoso ícone do segmento dos paninhos: Dóris Teixeira. E ao vê-la trabalhando numa máquina caseira, como se o ‘sanduíche’ que ela quiltava fosse um balé de Tolstoi e a agulha da sua máquina fosse os pés do bailarino Baryshnikov, senti felicidade e pensei comigo: ‘É essa liberdade que venho procurando! É isso! Achei!’”, conta Ciça.

Ela encontrou na arte uma nova carreira. Participou de alguns concursos e, após a exposição coletiva na I Brazil Patchwork Show, ela procurou a organização do evento,  descontente com a forma como foi organizada. “Ao invés de me expulsarem de lá, junto com minha arrogância e minha lista de reclamações (mais de 30!), eles me desafiaram a fazer melhor e colocaram em minhas mãos uma exposição que aconteceria na primeira Mega Artesanal de São Paulo, que estavam organizando para dali a dois meses”, conta Ciça. Foi neste momento que sua nova profissão de curadora surgia. Ao mesmo tempo ela percebeu a necessidade de formalizar este setor e, junto com duas amigas, criou a UNIART BRASIL (União dos Artistas Têxteis do Brasil).

De lá pra cá foram dezenas de exposições organizadas e diversos artistas descobertos. Aos poucos ela deixou de lado as suas criações e se dedicou 100% às curadorias. De forma muito inspiradora Ciça explica essa decisão, “a princípio eu também participava como artista das exposições onde atuava como Curadora, mas, depois de perceber que era mais feliz promovendo “o outro”, a artista se retirou.  Hoje, mais amadurecida, ao abrir mão da minha própria produção artística nem sofro mais, pois me inspiro na frase de Duchamp, que dizia: ‘… arte em si nem importa tanto, mas o tempo que dedicamos a ela’”.

A conversa com a Cíça foi muito esclarecedora, ainda mais pela minha vontade de ingressar no universo do Quilt Art e dos têxteis. Após ela compartilhar comigo o início da sua carreira neste setor, falamos de forma mais aprofundada sobre a organização e seleção de artistas para exposições, bem como a identidade e visibilidade do patchwork brasileiro. Mas como a leitura desse blog deve ser algo descontraído e leve, deixarei esse conteúdo para a próxima semana, em uma segunda parte dessa entrevista. Só assim será possível dar a devida importância e profundidade a temas tão significantes. Continuem nos acompanhando, temos ainda muito o que falar sobre esse tema tão sedutor.

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