Artistas que inspiram,  Eventos que participei

Lembranças afetivas de um dia em Floripa!

Sentem, porque o texto é longo e delicioso….

Em um período tão conturbado com várias mudanças pessoais e profissionais, parei para fazer algumas aulas no Floripa Quilt. Sempre fui apaixonada pelo trabalho da artista plástica Dóris Teixeira, e fui na verdade ao festival justamente para fazer suas aulas.

Quando foi liberado no site as oficinas, eu simplesmente fechei todas as da Dóris, sem saber sobre o que se tratava. São aulas que sempre dão lotação bem rápido, e sempre perdia por falta de vagas.  Iria fazer uma imersão de artes, bordados e texturas. Era um momento em que eu havia esperado e muito, e como sempre ficamos “brigando” por ajeitar os horários com todas as profissionais do setor, havia me proposto que esse ano eu iria realmente conseguir satisfazer esse meu desejo de aprendizado.

Dóris Teixeira, foto cedida gentilmente pela Lido Quilt de Niterói, RJ

Eis que no meio de tanta coisa pessoal, estava realmente histérica. Muitas coisas haviam mudado, e eu estava a mil por hora… mas não daquela forma só de fazer e sim de sentir. Sempre encarei o Patchwork como o meu momento terapêutico. Então mesmo com tantos “pensar” e “executar” me propus a “sentir” a liberdade de fugir para algo que me desse realmente muito prazer.

Dóris surgiu em duas oficinas como sempre… com sua personalidade forte, desprendida de qualquer coisa material (e olha que para nós quilteiras isso é muito duro), distribuindo materiais maravilhosos para que suas alunas fizessem peças lindas de patchwork.

Entre uma fala e o ensinar de uma técnica, colocava sempre uma pitada pessoal, de algum “causo mineiro”, contando suas experiências em seus trabalhos.

Ela tem a aparência de uma Maga que acabou de sair de Avalon. Sua fala é mansa, seus movimentos precisos e seu olhar extremamente atento, mas não pensem que é apenas doçura, pois há muito a desvendar em suas colocações, e isso é o mais apaixonante ao meu ver. Em tudo ela coloca a sua pitada de verdade, mesmo que isso não seja de todo “meigo”, mas quem quer aos 50 anos um dia apenas “meigo”. Queremos força, energia, paz e verdades.

Apesar de conhece-la há tantos anos por outras oficinas, cheguei a conclusão que nunca havia estado com ela.

Enfim, a terceira aula chegou. Não havia “quórum”. E pasmem… era porque ela iria ensinar a Fazer bonecas de Patchwork. Sim… bonecas aplicadas e bordadas. Nada a ver com quem é bonequeira, ou ama uma Tilda. Estávamos falando daquela construída com restos de tecidos e emoções, bordadas e aplicadas misturando vários tipos de materiais.

Fomos para uma sala pequena, já que no final éramos apenas 3. Eu cheguei cedo e ela apareceu como se viesse de uma Bruma mesmo. Com as mãos cheias de materiais lindos jogados a mesa.

Eu estava meio que anestesiada. Não sabia se deveria ficar ou não a aula, já que o meu notebook me chamava para finalizar tantos e-mails de trabalho.

E então a Dóris começou a me chamar para aquele plano (não terrestre) de me contar o motivo da aula.

Segundo Dóris Teixeira essa seria a mãe de todas… uma ideia de que nada é estático e que não estamos sozinhas.

Disse que vinha de uma família de mulheres muito fortes. Que suas avós todas tinham personalidades marcantes, e que influenciaram e muito sobre todos os trabalhos dela. Em poucos minutos, foi abrindo as páginas da história dela, contanto sobre sua infância, cheiros, lembranças afetivas e memórias espirituais. Sobre seus casamentos, filhos, viagens.

Explicou que cada uma daquelas mulheres colocadas a mesa eram suas avós de verdade. E todas estavam grávidas, pois Dóris Teixeira da sua maneira, enxerga a maternidade de forma ímpar.

Eu , que amo uma boa história, comecei a ver cada detalhe de suas peças. Uma com cara de índia, com a roupa feita de bordados e aplicações…. com um cabelo que mais parecia o da própria Dóris, e carregando nos ombros pássaros que buscaram sempre liberdade. Outra com ar europeu, daquelas que vieram realmente desbravar uma terra estranha. Tão nós brasileiras. Toda atenção aos detalhes… a borboleta jogada ao vestido, aos seios marcados por um liberalismo reprimido pela época, saias longas, com sapatos confortáveis. Um sol ao fundo… sim… aquele fundo que liberta o estático.

 

E  tinha essa boneca, toda feita de liberdade. Remetia as mulheres que defendem suas crias (ou não), que carregam nos braços sacolas com ervas e infusões para sonhos milagrosos. Que não tem vergonha alguma de serem feitas de retalhos, e de até carregarem uma galinha nos braços, e pasmem… seus olhos não tem o formato de peixes sem ter na verdade um bom motivo. Mulheres que não precisam ser penteadas… sim, podemos sim sermos apenas nós. A sexualidade mostrada com um sol no seio, e as flores para adocicar o presente em mutação. Os cabelos esvoaçando em uma direção única, pode ser por conta do vento da liberdade, alcançada a duras penas, pois ainda tinham que lutar pelos direitos das filhas e netas que estariam vindo.

Com sua voz quase rouca, me disse como eu tinha que fazer…. ou não fazer. Tinha que buscar em minhas memórias uma mulher que me foi importante. O cheiro? Qual o cheiro que ela me remetia? Qual era o tom da fala e as cores que ela gostava. E assim, em cima de uma base (feltro, algodão, manta ou qualquer coisa) deveria ir construindo uma pessoa. Deveria começar com a saia ou vestido… e  então ir montando conforme minhas memórias afetivas permitissem.

Lembrei no ato da minha bisavó Emília. Uma mulher forte, que fingia ser fraca para o Português Tirano do meu bisavô, que ajudava a todos os filhos e netos. Domingo era o dia de estarmos juntas. E ela abria a porta e nos benzia, e saia rapidamente para comprar um pão e queijo para o lanche da tarde. Uma mulher de avental manchado com as tarefas da casa… um cheiro bom de vó e colo.

Minha boneca, inspirada nas de Dóris Teixeira ainda em finalização.

E enquanto eu construía a minha Emília, Dóris continuava a falar sobre as mulheres fortes da história do mundo. Das rainhas e princesas europeias. Sim, ela misturava arte e cultura com muitas informações. Nos presenteava com tantos detalhes ricos da história das nossas antepassadas… e assim o tempo voooooouuuuuuuuu….

Eu simplesmente esqueci de todos os meus problemas. E mesmo ao ser avisada pelo meu despertador que a próxima aula estaria começando, não queria ir. Em minha corrida para o ir e vir para pegar o material da próxima aula, voltei correndo para buscar minhas coisas, e colocado de forma livre e absurdamente idêntico, Dóris gentilmente me colocou o que julgava ser o cabelo da minha Emília. Sim… parecia mágica, já que ela acertava no volume e no Xale de lã entre eles.

E assim meu dia com Dóris Teixeira terminou. Fiquei ansiosa em poder contar essa história no blog, pois acredito muito no poder da fala. Creio que devemos abrir espaços em nossos sentimentos para novas experiências.

Aquilo que poderia ser uma aula simples de bordado e aplicações, se tornou uma aula de alma. Me fez ainda mais forte. Foi libertador e terapêutico.

Esse é o poder do Patchwork… dos nossos retalhos construir pessoas melhores.

Um pouco dessa artista que muito recomendo conhecerem, e se tiverem a sorte, fazendo Bonecas de Patch!

4 Comentários

  • Ema Luiza Bordignon

    A melhor coisa que fiz foi trocar a passagem !!! Nós éramos só três mas tivemos o privilégio de ter a Dóris só pra nós ! A Dóris estava cansada mas como sempre inspirada e com todo conhecimento que ela tem a aula tornou-se mágica !!!!
    E nos passou muito conhecimento geral que eu não conhecia !
    Quero continuar essa aula muitas outras vezes !!!
    Eu amo a Dóris !!!❤️❤️❤️❤️??????????

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *