Artistas que inspiram

A arte de ir além!

Muitas vezes a vida nos leva para longe do que realmente nos faz feliz. Mas um dia o nosso caminho aparece e encontramos a nossa verdadeira vocação, com a Cláudia Dias foi assim. Formada em artes plásticas, ela sempre gostou de desenhar, porém quando foi morar em São Paulo acabou se envolvendo com o ramo de joalherias. Mas o destino dá um jeito de mostrar o que devemos fazer. “Uma tia do meu marido me mostrou o patchwork tradicional, mas não me adaptei. Pois eram muitas regras e matemática”, conta Cláudia. Ela olhava para o tecido e imaginava outras possibilidades, queriam fazer algo diferente. “Admito muito quem faz o tradicional, mas não era para mim. Porém um dia conheci a Dóris e meu mundo se coloriu”, explica. Ela está falando da Dóris Teixeira, uma artista e professora incrível, conhecida pelas seus trabalhos repletos de cores, detalhes e texturas.

E foi assim que ela descobriu a sua vocação: criar imagens, texturas e sensações com os tecidos. “Agora sou livre pra criar”, conta Cláudia. E seu trabalho é o exemplo perfeito dessa liberdade. Essa artista incrível busca inspirações nas estampas florais e nas próprias fotos. Ela não se limita a apenas tecido na hora de escolher sua matéria prima. “Gosto muito de pesquisar materiais diferentes, uso plástico, redes de flores, papel etc.”, explica. O resultado são obras autorais, cheia de texturas e cores.

Obra “Panapaná” exposta em Portugal.

Essa opção por utilizar outros materiais também está relacionada a questão do consumo. Foi muito gratificante conversar com uma artista que também está preocupada na utilização de recursos de forma consciente e reaproveitando ao máximo itens que normalmente seriam descartados. “Eu fico pensando por que vou cortar o tecido em vários pedacinhos se eu posso pegar um branco e tingi-lo?” questiona Cláudia. Muitas vezes somos seduzidos a comprar tecidos diferentes e esquecemos que podemos aproveitar melhor o que já temos guardado. “É realmente olhar para o item e falar: eu preciso disso?”, explica. Isso nos faz pensar em quantas vezes compramos coisas que ficam entulhadas nos armários.

Fazer o novo

Obra “Obsessão”exposta em Paducah.

Em nossa conversa foi inevitável não falar sobre o processo criativo. Vivemos na era da tecnologia, temos acesso a imagens, vídeos, informações de forma muito simples e rápida. Mas isso também faz com que o criar se torne cada vez mais raro. “Em meus cursos abordo sobre a criação, como sou artista plástica é um processo que já tenho mais noção. Mas também vejo um certo medo nas pessoas, de ter ideias e coloca-las no papel”, explica Cláudia. Essa dificuldade também é parte de uma formação de cultura, o Brasil está iniciando sua trajetória na art quilt e ainda é preciso melhorar em muitos aspectos. “Precisamos de mais conscientização em relação a criação”, complementa a artista.

Obra “O canto do Uirapuru” exposta em Portugal.

Cláudia já participou dos principais festivais internacionais do setor, porém nunca enviou trabalho seus para os brasileiros. Essa decisão está diretamente ligada a fragilidade de como lidamos com a questão do trabalho autoral. “O julgamento de um trabalho de art quilt não pode ser apenas sobre a técnica e sim sobre o que está na frente, a imagem representada”, explica Cláudia. A artista já enviou trabalhos para os EUA, Portugal, Itália, Paris… e tem sido muito bem recebida em todos esses lugares. “A receptividade do meu trabalho é muito boa, pois trata-se de uma busca, uma pesquisa. É isso que as brasileiras precisam ir atrás, olhar suas fotos, suas inspirações. Ver uma flor, uma paisagem, uma criança e fazer uma releitura disso”, complementa.

O processo criativo não é algo simples ou fácil, nem mesmo para grandes artistas. Cada um tem a sua maneira e o seu ritual na hora de pensar em uma nova obra. “Geralmente quando participo de mostras tem um tema, aí vou pesquisar o assunto, e descobrir o que ele significa pra mim. Faço leituras, pesquiso imagens e depois faço um desenho”, explica Cláudia. Após toda essa fase de reflexão, que muitas vezes chegam a levar semanas, é que ela inicia o processo de produzir o trabalho. “O ato da criação é até sofrido, pois não me conformo com qualquer imagem que eu crio. As vezes fico até um mês com trabalho”, desabafa a artista. Mas o resultado final é realmente maravilhoso e todo o esforço e dedicação faz valer a pena. O mesmo acontece nos workshops que ela oferece. Ela faz um planejamento e a criação do projeto que será ensinado, pensando em diferentes temas e o uso das técnicas para executá-los.

Ao finalizar nossa conversa Cláudia deixou escapar alguns de seus planos para o futuro. “Eu tenho um planejamento de fazer um livro, está em andamento”, conta. Ela também está criando seu site, assim será possível acompanhar de perto seu trabalho e trocar experiências. Foi um bate papo delicioso e com gostinho de quero mais, o que nos resta é a expectativa de tudo que ainda está por vir dessa excelente artista.

2 Comentários

  • Rosana Viera Da Silva Costa

    A arte de ir além, da artista Claudia Dias, nos permite olhar o que se encontra ao nosso redor e registra-lo em uma imagem de releitura da nossa vida. Ter aulas com esta artista extraordinária me fez e faz olhar o projeto de patchwork como arte de registro de nossa história. PARABÉNS!

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